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Abandonados por dekasseguis e pela falta
de legislação entre Brasil e Japão
Famílias vivem drama enquanto aguardam acordo
bilateral sobre pagamento de pensão alimentícia
 

Audiência no Senado, em Brasília (DF), foi um passo para as famílias abandonadas por dekasseguis conseguirem seus direitos

(Reportagem: Edgard Matsuki, especial para o NB | Fotos: Cristina Gallo/Agência Senado, )

Djalma, Margarete, Tânia e S.T. moram em cidades diferentes e poderiam nem se conhecer, mas algo em comum os uniu: eles foram abandonados ou perderam contato com brasileiros que foram para o Japão. Os quatro sofreram financeira e emocionalmente com a separação, já que ficaram sem o apoio de quem havia ido para o outro lado do mundo em busca de um futuro melhor para toda a família.

Não são poucas as famílias que passam por esta situação. Tanto que uma associação foi criada a fim de reivindicar os direitos de quem ficou no Brasil. A Associação das Famílias Abandonadas por Dekasseguis (AfadBrasil) tem atualmente 300 famílias registradas (incluindo os quatro casos desta reportagem), mas estima que no País 15 mil pessoas tenham sido abandonadas por parentes que foram trabalhar no Japão.

Essas histórias normalmente começam com as dificuldades financeiras no Brasil. Por causa delas, chefes de família se veem obrigados a ir trabalhar no Japão. E não são raros os casos de a distância geográfica acarretar a separação do casal. Quando ocorre o divórcio, o drama familiar, muitas vezes, tende a aumentar, em função da falta de uma regulamentação Brasil-Japão em relação a pensão alimentícia. A inexistência deste acordo faz que muitas pessoas com ex-cônjuges no arquipélago não recebam o que têm direito e passem dificuldades financeiras no País.

A solução tentada na maioria das vezes é um acordo verbal de um valor mensal enviado por quem está no Japão. O problema é que nem sempre esse trato é cumprido e nada pode ser feito judicialmente, por falta de um tratado bilateral sobre o assunto. O resultado é que pais e mães no Brasil se veem obrigados a cuidar sozinhos do sustento e da educação dos filhos.

Com a audiência pública ocorrida no Senado em abril, as pessoas que perderam contato com os ex-cônjuges no Japão deram um passo em relação a este acordo sobre pensão alimentícia. A AfadBrasil (Associação das Famílias Abandonadas por Dekasseguis) pediu publicamente uma solução que ajude a resolver os problemas das famílias.

Muitas famílias abandonadas lutam há tanto tempo por uma solução que os filhos já tornaram maiores de idade. Mas nada apaga as dificuldades para criação e sustento de crianças sem qualquer tipo de apoio do pais ou da mãe. Conheça a história de Djalma, Margarete, Tânia e S.T., personagens com parentes no outro lado do mundo e que a continuam a batalha por seus direitos que a Justiça, por enquanto, não lhes garante.

 
O abandono que levou à fundação da AfadBrasil

Djalma Straube, fundador da AfadBrasil,
teve de criar as duas filhas sozinho

Quando o autônomo Djalma Straube sentou na bancada do Senado, em Brasília (DF) para falar da situação das famílias abandonadas pelos parentes no Japão, 20 anos de memórias vieram à tona: a viagem da ex-esposa Izaura, as dificuldades de criar duas filhas e a fundação da associação que luta pelos direitos dos familiares deixados no Brasil.

Até 1992, os negócios de Straube iam muito bem. O sustento da esposa Izaura Oka e das filhas Lilian (então com 5 anos) e Gabriela (na época com 1 ano) era tirado do trabalho com artigos de escritório como máquinas de datilografia e mimeógrafos em Mogi das Cruzes (SP). Com o avanço tecnológico e a liberação da importação de computadores a microempresa foi à falência.

Nesta época, o fenômeno dekassegui começava a crescer entre os nikkeis e a solução encontrada foi a ida da família para o Japão. Ele e Izaura providenciaram toda a documentação para a viagem, mas não conseguiram embarcar juntos. “As agências alegavam que as crianças eram pequenas demais ou que só contratavam trabalhadores que falavam japonês ou mesmo que só contratavam descendentes”, lembra Straube.

O casal optou por Izaura, que é nikkei, ir primeiro para o Japão e depois de algum tempo o marido viajaria com as filhas. Por dois anos o casal manteve contato. Segundo Straube, Izaura mandava o dinheiro para a construção da casa e dizia que no Japão não havia emprego para o marido. Enquanto a casa estava sendo construída, ele e as crianças moravam com os pais de Izaura.

Problemas de relacionamento levaram-no a sair da casa dos sogros antes do término da construção. Straube diz que ficou com medo dos maus tratos que a filha sofria: “A família dela arranjou uma babá que não gostava da Lilian. Teve uma vez que cheguei mais cedo em casa, e a babá estava batendo na minha filha”. Nesse período, ele e a esposa perderam contato.

Nos cinco anos que ficou afastado de Izaura, ele teve de se virar para cuidar das duas filhas. “Trabalhava dez horas por dia e ainda as educava. Como tinha de conciliar trabalho e tempo com as minhas filhas, algumas vezes elas dormiram em uma caixa de papelão no meu emprego”, relata. Ele conta que quando faltava gás, cozinhava em um fogão a lenha que era improvisado com galões de tinta.

Em 2000, o casal se separou. Os dois entraram em acordo de que seria mandado 300 dólares por mês para sustento da família, mas o trato foi cumprido por apenas um ano. Straube afirma que a esposa ainda manda esporadicamente algum dinheiro para as filhas, mas apenas para não perder contato.

A experiência vivida levou-o à criação da AfadBrasil. Agora luta não só por ele, mas também por 300 famílias cadastradas na associação. E diz que irá até o fim. “Se não fizerem nada a respeito da situação das famílias abandonadas por dekasseguis, vou fazer greve de fome em Brasília”, promete Straube.

 
De esposa do chefe ao trabalho de limpeza

Margarete Kayaki emocionou-se
ao relatar sua história aos senadores

A agente escolar Aparecida Margarete Kayaki também esteve presente na audiência no Senado, em Brasília (DF). Como representante das famílias abandonadas por dekasseguis, ela teve a oportunidade de contar o que aconteceu depois que o marido Mário Kayaki viajou para o Japão prometendo uma melhora de vida do casal. Ao relembrar o que passou para criar os filhos, Margarete foi às lágrimas diversas vezes.

Ela chorou porque além de criar os filhos sozinha sem ajuda financeira do marido (com quem é casada legalmente até hoje), teve de aguentar humilhações e perguntas das pessoas que queriam saber o que teria acontecido para o marido sumir. “Sou casada e sem marido. É triste. E o que mais pesa para mim é a questão do abandono, ele não dar atenção para os filhos”, diz a agente escolar.

Margarete conta que o marido sequer tinha motivos para ir trabalhar no Japão. Ao contrário da maioria dos dekasseguis, ele estava num bom emprego – era chefe da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) em Poá-SP: “Tínhamos casa, dois carros, empregada. Ele só viajou para acompanhar os irmãos que estavam desempregados”, relata ela.

A viagem de Kayaki aconteceu no final de 1995 e a promessa era de que em três meses a família toda embarcaria para o Japão. “Como sabia que ia para lá, vendi todos nossos pertences por um preço bem baixo”, lembra Margarete. Quando chegou a data para a família viajar, o marido disse que era melhor ela não ir. “Falou que estava muito frio no Japão. Aí, no verão, disse que estava se mudando”, conta Margarete.

Nos três primeiros anos em que esteve no Japão, Kayaki mandava dinheiro regularmente para a família. Em 1998, tudo mudou após ele voltar para o Brasil. “Alegou que estava sem nada. Logo, foi para o Japão novamente e parou de mandar dinheiro. Na verdade, ele já estava com uma nova família”, afirma Margarete. Segundo ela, Mário tem um outro filho de 9 anos que até pouco tempo não sabia da existência da família do pai no Brasil.

Para criar a filha Nathen e o filho Felipe, Margarete teve de começar a trabalhar. “O lado bom de toda história é que comecei a me virar sozinha e também tive de aprender a ser pai e mãe”, conta Margarete. Ela explica que para não passar fome, precisou pedir cestas básicas para a Prefeitura de Poá. “O pior é que enquanto a gente passava por esta situação, ele (o marido) tinha carro e ficava esquiando no Japão”, diz Margarete.

O momento mais difícil para ela foi quando trabalhou de faxineira na CPTM, mesmo local em que o marido havia sido chefe alguns anos antes. “Foi horrível aguentar as brincadeiras. Perguntavam se ele tinha me largado. Recebi até propostas ridículas de pessoas que acharam que eu me venderia por pouco”, diz Margarete.

As mágoas de Kayaki não ficaram apenas em Margarete. A filha Nathen diz que não sente nenhum afeto pelo pai. “Enquanto esteve comigo ele foi bom, mas hoje não consigo sentir nada em relação a ele. É como se fosse um desconhecido”, fala Nathen. Ela diz que as situações pelas quais passaram ajudaram mãe e filhos a se unirem: “Nos piores momentos sempre estivemos juntos. Por isso vencemos”, afirma a menina.

Margarete espera que um acordo entre os governos do Brasil e do Japão possa ajudar as famílias abandonadas no pedido de divórcio e pensão alimentícia. “Felipe quer fazer faculdade de Educação Física e quero ajudá-lo. Tudo o que desejo é que saia um acordo e que eu possa educar meus filhos até o fim. É a minha esperança”, revela a agente escolar.

 
Um ano perto e 16 separados

Margarete Kayaki emocionou-se
ao relatar sua história aos senadores

A história de Tânia e Paulo Arakaki tinha tudo para ser uma bela história de amor. O casal se conheceu em São Paulo no ano de 1993 e com menos de um ano de namoro decidiram se casar. O matrimônio foi apressado por um motivo: eles iriam juntos para construir a vida no Japão. “Queríamos ir pelo mesmo motivo que leva todos os jovens nikkeis ao Japão: melhorar a vida”, explica Tânia.

Pouco antes de embarcar para o Japão, tiveram de mudar os planos por causa da gravidez de Tânia. Por conta disso, o marido viajou sozinho antes de a criança nascer. Em menos de um ano já haviam perdido contato. Hoje, já são 16 anos separados.

Tânia acha que a situação financeira do Japão mexeu com a cabeça do marido. “Ele passou a ter poder de compra. Acho que não conseguiu lidar com isso. Mas eu me decepcionei demais com ele”, diz Tânia. Segundo ela, Paulo tem um filho de 15 anos no Japão e nunca chegou a conhecer Yukari. “Na verdade, ele nunca foi pai dela. Só no papel mesmo. Afinal nunca educou nem ajudou financeiramente”, conta.

Para ela, professora, o mais difícil não foi a questão financeira, mas a ausência na hora de dar educação. “Criar um filho quando o pai morre já é um trauma. Imagina não sabendo onde ele está e ainda precisando falar bem dele para a filha não se revoltar”, diz Tânia.

Ela lamenta o fato de não poder pagar uma boa escola para a filha. “Yukari é muito inteligente e está se esforçando desde já para o vestibular, mas sei que um bom ensino fará falta”, afirma a mãe. Ela chegou a entrar na justiça para pedir pensão alimentícia ao marido, mas o processo arrasta-se desde 2002. “Espero que o acordo entre Brasil e Japão saia do papel e ajude a resolver o caso”, espera Tânia.

 
Casados no Japão e separados no Brasil

S.T. e M.T. conheceram-se no Japão, em 1994. Dois anos depois resolveram voltar para o Brasil. Na mesma época, ela ficou grávida. O maior problema do casal é que o marido era de Cuiabá (MT) e ela de Boituva (SP).

Eles resolveram morar no Mato Grosso, mas a distância da família e problemas de relação com os sogros acabaram provocando o divórcio em 1998. “Quando a gente conhece alguém no Japão esquece que no Brasil as coisas são mais difíceis”, conta S.T. Com isso, ele voltou para o arquipélago e ela para o interior de São Paulo junto com a filha do casal.

O ex-marido prometeu que iria arcar com as despesas para educação e criação da menina. Promessa que foi cumprida até o ano de 2002, quando sumiu de vez. “Ele parou de mandar dinheiro mesmo em 2002, mas antes já começava a falhar. No início ele mandava todo mês, depois mês sim e não. Por fim, mandou só no aniversário da menina”, diz S.T.

Ela entrou na justiça para pedir a pensão alimentícia ao marido, mas como ele não foi encontrado no Japão nada pôde ser feito. “Na minha opinião é algo simples de ser resolvido. Todos sabiam o endereço dele no Japão, só não podem entregar a intimação. É falta de habilidade da justiça”, acredita S.T. Só depois do segundo processo, chegou-se a uma tentativa de solução judicial.

Quem acabou condenado a pagar a pensão foram os avós paternos da criança, mas S.T. não acha justo. “Quem fez o filho foi ele e não os avós”, diz S.T.. Na tentativa de entrar em um acordo com o ex-marido, ela viajou para o Japão em 2007 com a filha. A menina (hoje com 13 anos) teve a oportunidade de criar um laço familiar com pai. Mas segundo S.T., eles só se afastaram mais.

Nada foi resolvido a respeito. S.T. e a filha voltaram para o Brasil e o caso arrasta-se na justiça, pois os avós da criança recorreram. Para S.T. já está mais do que na hora de os governos brasileiro e japonês entrarem em um acordo: “Casos como o meu existem aos milhares, dizem que a lei da pensão alimentícia é a única respeitada no Brasil, mas eu acho que não. Quando teremos uma solução?”

 
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