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Pouco meses após os festejos oficiais, o centenário ainda rende discussões nos bastidores da comunidade

Festa no Anhembi reuniu 25 mil pessoas por dia:
problemas nas informações e também na entrega dos convites aos participantes

(Reportagem: Cinthia Yumi/NB | Foto: Divulgação)

Prestar uma justa homenagem aos imigrantes e aos brasileiros; buscar maior união da comunidade nipo-brasileira no Brasil e no Japão; fortalecer o relacionamento bilateral Brasil–Japão; e preservar e incrementar a divulgação da cultura japonesa no Brasil e a brasileira no Japão. Esses são os principais objetivos do centenário da imigração japonesa, elaborados e divulgados desde a primeira reunião para a constituição da Associação das Comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (ACCIJB) em 2001.

Pouco mais de dois meses depois da realização dos festejos oficiais em Brasília, São Paulo e Rolândia, o centenário da imigração japonesa ainda rende muito “pano para manga”. O fortalecimento das relações bilaterais e a divulgação da cultura japonesa vão bem, obrigado. Mas a união na comunidade parece algo ainda distante.

Aos olhos do público, a festança foi memorável, abrilhantada ainda pela presença do príncipe Naruhito. Nos bastidores, porém, o que se viu e o que se vê são acaloradas discussões e trocas de farpas entre algumas lideranças. Feridas que, certamente, deverão levar ainda algum tempo para serem cicatrizadas. “É triste constatar, mas, hoje, temos uma comunidade mais dividida, mais machucada após o centenário. Foram erros atrás de erros. Será preciso uma mudança muito grande para reparar e colocar a comunidade em um novo caminho”, lamenta um diretor da Associação do Centenário.


DEFESA DA UNIÃO
A tão pregada união, defendida principalmente após um encontro inédito, em junho de 2005, com 28 líderes nikkeis de 14 Estados, ficou mesmo, na visão de alguns de seus participantes, no campo do discurso. “As lideranças de São Paulo só nos procuram quando precisam, principalmente quando se trata de ajudar na venda de rifas e arrecadação de recursos”, dispara uma fonte que prefere não ser identificada.

A iniciativa da época foi elogiada, mas a ação mostrou-se deficiente. Havia vontade em colaborar, mas faltou, na opinião de muitos líderes do interior, um pouco mais de organização. “Há pessoas que só criticam, mas não fazem nada para nos ajudar”, costuma dizer um diretor da Associação do Centenário.


CRÍTICAS NO ANHEMBI
Na prática, o clima pesado no ano do centenário já vinha sendo sentido há muito tempo. Nunca as entidades nikkeis viveram disputas internas tão intensas. E foi assim nos kenjinkais, nas áreas de esportes, karaokê... Algumas figuras até se desgastaram por conta dos preparativos, a ponto de simplesmente “sumirem do mapa”.

Os preparativos para a festa no Anhembi foram cansativos, sem dúvida. Aliás, a escolha do local já havia gerado severas críticas. Apesar de bem localizado, era pequeno demais e com um campo de visão difícil para o público acompanhar o príncipe Naruhito, por exemplo. “Durante cinco anos, a Associação do Centenário trabalhou com uma comissão meramente de membros da própria comunidade. Tiramos como parâmetros os festejos dos 80 e 90 anos da imigração. Imaginava-se que 25 mil lugares seriam suficientes. Mas acabou ficando pequeno diante de tamanha procura”, defende Elzo Sigueta, coordenador da Comissão de Festividades.

A distribuição de convites para os dois dias de festejos oficiais no Sambódromo também não escapou dos comentários. Primeiro porque quase ninguém sabia quais os critérios de avaliação a quem dar ou não os mesmos. Isso sem dizer que eles só ficaram prontos uma semana antes dos festejos. “Seguraram os convites até a última hora. Muita gente, inclusive idosos, que gostaria de ter ido, não foi porque a justificativa era de que não havia mais ingressos”, afirma um líder nikkei.

Na véspera, sobravam convites para o Anhembi. Na prática, o que se sabe é que ninguém falava a mesma língua. “Alguém divulgou que as pessoas com mais de 80 anos teriam prioridade, mas isso nunca foi discutido. Famílias inteiras vinham em busca de entradas e preenchiam cadastros. Falhamos na distribuição por falta de experiência de um evento de tamanha envergadura”, reconhe Sigueta. A entrega dos convites, por parte da fabricante, também atrasou.

Ao NB, algumas pessoas que prestigiaram a festa no Sambódromo mencionaram a falta de informações dos próprios voluntários. “Sei de muita gente que ficou revoltada com a má organização no Anhembi. Acho que faltou experiência da comissão. Colocaram estagiários para atender as pessoas sem qualquer informação”, lamenta uma senhora.

Outro problema. Para enxugar as despesas, a comissão organizadora resolveu cortar a ajuda a alguns grupos que se apresentariam no Sambódromo. Crianças do coral de vozes, por exemplo, participantes do programa Viva Japão, quase ficaram sem a camiseta comemorativa. “Não estava previsto o fornecimento da camiseta. Mas ainda assim o fizemos para alguns grupos”, destaca Reimei Yoshioka, coordenador da Comissão de Projetos.


RACHAS NAS ENTIDADES
Na prática, o centenário da imigração é o centro de rachas na comunidade desde que entrou na pauta das reuniões a partir de 2001. Até hoje, há líderes contrários à idéia da concepção da ACCIJB.

Pelo sim ou pelo não, a ACCIJB saiu do papel em 2003. O engenheiro e professor da Universidade de São Paulo, Kokei Uehara, foi guindado à dupla presidência. Já estava à frente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e Assistência Social (Bunkyo) e assumiu também a ACCIJB. Foi o suficiente para que chovessem críticas. “O Uehara é um grande professor, uma pessoa muito boa, mas falta-lhe liderança”, diz um ex-diretor do Bunkyo.

A criação da Associação do Centenário foi necessária, na visão de alguns líderes, por motivos óbvios. Um deles é que o Bunkyo, a quem cabe o papel de integrar as entidades nikkeis de todo o País, tem suas pendências financeiras com o INSS, o que inibiria parceiros e patrocinadores. Além do mais, o Bunkyo, ainda que tivessem pessoas contrárias, é uma coisa; as comemorações do centenário, outra.


PROJETOS EM AÇÃO
Desde a implantação da ACCIJB, o número de projetos comemorativos foi grande, não surpreendente. De cara, foram classificados 92 projetos. Quatro deles, as ampliações do Hospital Santa Cruz, em São Paulo, e do Colégio Harmonia, em São Bernardo do Campo, e as construções do Centro Cultural em Araçatuba e do Centro de Integração Brasil-Japão, também na capital paulista, tornariam-se símbolos dos cem anos. “Apresentaram megaprojetos longe da realidade. São projetos criados por uma geração de nisseis conservadora, que tentou jogar confete em si própria”, diz uma outra crítica dos líderes no poder.

Como se sabe, de fato, os quatro projetos não vingaram. Ou quase. Pelo menos as ampliações do Santa Cruz e do Harmonia estão em andamento. Os outros dois só ficaram no papel. O último, por sinal, que previa sua instalação na Vila Leopoldina, na zona oeste de São Paulo, foi o epicentro de ríspidas discussões que estremeceram as salas de reuniões do Bunkyo até 2005, quando foi efetivamente engavetado. Aos contrários do projeto, a justificativa era de que ele, avaliado em R$ 75 milhões, estava em uma região de difícil acesso e, principalmente, só serviria para alguns pouco interessados. “Sempre tivemos e temos muita gente querendo ajudar. Mas não conseguem, porque há intelectuais no comando que não entendem de comunidade nikkei”, dispara o ex-vice-presidente do Bunkyo, Akio Ogawa.


FALTA DE HARMONIA
A falta de harmonia em prol de um único projeto comemorativo já havia sido alertada por um membro do governo japonês quando da visita do então primeiro-ministro Junichiro Koizumi ao Brasil em setembro de 2004. Na época, ficou a promessa de que uma ajuda financeira poderia até vir, desde que houvesse consenso entre as lideranças. Isso não aconteceu. De tabela, o dinheiro também não chegou.

Até para se obter recursos para a Semana da Cultura Japonesa no Anhembi, em junho passado, foi um sufoco. O empresário Renato Nakaya suou para colocar o projeto nos trilhos. Após aprovar o projeto na Lei Rouanet pelo Ministério da Cultura, correu contra o tempo. Para isso, contou com a ajuda de um grande banco, que assumiu boa parte do patrocínio. Às empresas japonesas, lamentou a falta de apoio.

Não bastasse a dificuldade em obter o apoio financeiro do governo japonês, a confusão em torno da moeda comemorativa também criou uma saia-justa entre a ACCIJB e as autoridades nipônicas. Cunhadas com o desenho do Monumento dos Imigrantes de Santos, as primeiras moedas foram descartadas por conta de um imbróglio jurídico envolvendo a autora da concepção da obra. “Fatos como esse demonstram amadorismo puro. Erros assim são imperdoáveis junto aos japoneses”, lamenta um outro líder.

Nesse rol de críticas, nem os concursos da logomarca e da mascote escaparam ilesos. Não pelo resultado, em especial da criação de Tikara e Keika pelos estúdios do desenhista Maurício de Sousa, mas sim pela forma como foram conduzidos. “Propagaram os concursos por toda a imprensa, mas depois mudaram tudo. Foi um desrepeito com os participantes”, analisa um outro colaborador da Associação do Centenário.


FALTA DE ORGANIZAÇÃO
A luta para marcar dignamente o centenário da imigração foi latente entre as lideranças nikkeis. “O trabalho deles é louvável. Trabalharam com afinco, mas faltaram foco e objetividade. Mas, acima de tudo, faltou organização”, lamenta outra fonte ouvida pelo NB. “Cumprimos com o objetivo proposto, que era de fazer uma grande festa. Como comemoração, oferecemos um belo espetáculo, não só à comunidade nikkei, mas à brasileira também”, responde Tomio Katsuragawa, diretor da Associação do Centenário, responsável pela Comissão de Homenagens.

Desde que a lista dos 440 homenageados com a Comenda Kasato Maru, em agosto último, foi divulgada, Katsuragawa é um daqueles diretores da ACCIJB que têm sofrido com as críticas. A ele, chegam as reclamações de que muitas personalidades foram esquecidas na cerimônia que ocorreu há duas semanas. “Pedimos para que as associações indicassem as pessoas a serem homenageadas. Levamos dois anos fazendo esse trabalho. O prazo foi razoável, mas reconheço que alguns nomes não foram lembrados. Mas as regras eram claras. Só seria homenageado quem fosse indicado”, argumenta.


MANUTENÇÃO DO COLETIVISMO
Apesar de todos os problemas, o espírito de coletivismo na comunidade nikkei não morreu. Pelo menos é assim que analisa a socióloga Célia Sakurai, uma das maiores especialistas em imigração japonesa. “Bem ou mal, os nikkeis ainda sabem trabalhar em grupo, caso contrário, todas essas festas que pipocam por aí não ocorreriam. O centenário, porém, é uma ‘sementinha’ para uma nova reflexão. Há lideranças jovens surgindo. Vamos dar tempo ao tempo para ver os rumos da comunidade”, diz.

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