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• Era Heian (Parte 4) - Era Heian e o budismo
A história do budismo no arquipélago foi sedimentada pelo príncipe Shôtoku e encontrou sua sublimação com o monge Ganjin

O ser humano nasce puro e começa a viver em busca da plenitude no decorrer da vida, quando passa por altos e baixos, experimenta emoções e sentimentos diversos. Na juventude, só há olhos para a vida; com o amadurecimento, iniciam-se os questionamentos sobre a vida e o significado da morte. No empenho para se obter uma resposta, várias religiões foram criadas.

No Japão, embora já existisse uma crença nativa entre o povo, o budismo foi acolhido e difundido entre a nobreza, por possuir um embasamento teórico mais racional e por estar mais adequado ao temperamento pacífico dos japoneses e à integração com a natureza.

A história do budismo no arquipélago foi sedimentada pelo príncipe Shôtoku e encontrou sua sublimação com o monge Ganjin. Entretanto, foi na Era Heian que essa religião se transformou em uma cultura genuinamente nacional, isso porque foi no início desse período que foram introduzidas no Japão as seitas Tendai e Shingon.

Os ensinamentos de jôdo (Terra Pura) do budismo foram difundidos em meados da Era Heian pelo desejo de deixar esta vida serenamente, entregando-se às mãos de Amidabutsu (divindade budista mais popular no Japão), e encontrar a paz eterna no paraíso.

Monge Saichô e monge Kûkai
No início da Era Heian, as seitas budistas que mais conquistaram adeptos foram a Tendai e a Shingon, lideradas pelo monge Saichô (767~822) e pelo monge Kûkai (744~835), respectivamente. Nessa época, o budismo ainda era a crença apenas da nobreza, não sendo cultuado pelo restante do povo. O sincretismo entre a doutrina budista e a crença xintoísta acentuou-se, chegando à construção de um templo budista no pátio de um templo xintoísta e à cultuação de uma divindade regional como protetora de um templo budista. Criou-se também a crença de que os diversos deuses eram a reencarnação do Buda, que vinha para este mundo sob diversas formas para salvar os homens.

O monge Saichô teve sua iniciação religiosa atraído pela doutrina da seita Tendai, fundada pelo grande mestre chinês Chigi (Tendai-Daishi Chigi), levada para o Japão pelo monge Ganjin. Saichô aproximou-se do imperador Kanmu e conseguiu, em 804, integrar a missão a Tang (kentô-shi) como missionário oficial, com direito a intérprete e a todas as mordomias de um representante oficial do país. O monge Kûkai também conseguiu viajar à China junto com essa missão, mas na qualidade de um simples bolsista particular.

Durante os oito meses nos quais permaneceu na China (Dinastia Tang), Saichô reuniu sutras da seita Tendai, artes búdicas e estudou o budismo esotérico. Quando voltou ao Japão, ele se dedicou de corpo e alma à fundação da seita Tendai no arquipélago.

O monge Kûkai, por sua vez, permaneceu na China por aproximadamente três anos, visitando vários templos e encontrando-se com o famoso e conceituado monge chinês Keika, no Templo Seiryû, em Changan, do qual recebeu ensinamentos sobre o budismo esotérico. Kûkai também aprendeu sânscrito antes de voltar ao Japão, trazendo consigo além dos vastos conhecimentos adquiridos na China, diversas obras búdicas, como quadros, objetos sagrados e mandala.

A morte do imperador Kanmu acabou com o prestígio que o monge Saichô tinha junto à nobreza, porque o imperador Saga, sucessor de Kanmu, demonstrou maior simpatia pelo monge Kûkai, que se consolidou como autoridade máxima do budismo esotérico. Em Quioto, Saichô começou a transmitir os ensinamentos da seita Tendai instalando-se no Monte Hiei, e Kûkai fundou no Monte Kôya a base do budismo esotérico: a seita Shingon.

Saichô e Kûkai, os dois grandes gênios do mundo religioso, sempre tiveram a proteção dos nobres e dedicaram suas vidas a manter a paz e a glória da nobreza e da corte. Eles foram os primeiros a receberem o título de Grande Mestre no Japão. O monge Saichô recebeu o título de Grande Mestre Dengyô (Dengyô Daishi); e o monge Kûkai, o de Grande Mestre Kôbô (Kôbô Daishi).

O monge Kûya e a seita Jôdo
No início do século X, com o enfraquecimento da corte de Yamato, os nobres que fixaram residência no interior e os grandes clãs regionais começaram a adquirir maior poder, iniciando lutas – que se tornaram cada vez mais acirradas com o passar dos anos – para aumentar os seus feudos.

Nesse cenário de incertezas, surgiu o monge Kûya (903~972). Ele pregava entre o povo de Quioto, que vivia sobressaltado com as lutas constantes, os flagelos provocados pela natureza e a fome. Kûya pregava a salvação pelo nenbutsu (oração budista), invocando o Buda Amidabutsu. Ele influenciou vários grandes monges e conquistou muitos adeptos entre o povo, pois levava uma vida ascética, compartilhando suas incertezas e seus sofrimentos, diferente dos monges confortavelmente protegidos pela nobreza. Entretanto, quem consolidou essa doutrina de salvação pelo nenbutsu para alcançar a Terra Pura (Jôdo) foi o monge Genshin (942~1017), que escreveu Ôjo Yôshu, uma obra que explica, num estilo primoroso, a teoria e a prática de salvação da alma pós-morte.

O mappô shisô pregado pelo budismo, a progressiva crença no fim do mundo, fazia com que o povo de Quioto, vítima constante de assaltos, epidemias e outras provações, tentasse encontrar a paz espiritual pelos ensinamentos da seita Jôdo, ou seja, a salvação no mundo da Terra Pura. Dessa forma, começaram a surgir várias “biografias” de pessoas que encontraram a suposta salvação, reunidas numa coletânea conhecida como Ôjo-den.

Com a difusão da seita Jôdo – fundada pelo monge Hônen (1133~1212) em 1175, final da Era Heian – sua arte também prosperou. Foram esculpidas muitas imagens do Buda Amidanyorai e construídos templos suntuosos, na tentativa de recriar o gokuraku (paraíso dos budistas), sendo um dos mais conhecidos o Hôôdô do Templo Byôdoin, em Quioto.

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