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Por
Luiz Inácio Lula da Silva*
Há
cem anos, com a chegada do primeiro grupo de imigrantes japoneses ao Porto
de Santos, a bordo do navio Kasato Maru, começava a ser trilhada
uma das histórias de maior sucesso de integração
cultural entre dois povos tão distintos. Passado tanto tempo, a
relação entre Brasil e Japão deixou marcas importantes
nos costumes dos dois países. Não há como negar que,
hoje, para nós, brasileiros, muito da cultura japonesa faz parte
natural do nosso dia-a-dia e que os japoneses, especialmente nos últimos
anos, descobriram em seu próprio país a força da
cultura brasileira.
Os restaurantes
de culinária japonesa estão espalhados por todo o Brasil,
assim como o nosso pãozinho de queijo e os sorvetes de nossas frutas
também marcam presença em algumas cidades do Japão.
Aqui, nós integramos as lutas marciais à vida esportiva
de nossas crianças e nos tornamos um país campeão
no judô. Lá, no Japão, eles importaram muitos dos
nossos principais talentos do futebol, Zico é o maior exemplo disso,
e chegaram a sediar a Copa do Mundo de 2002.
É importante
destacar que o que uniu e une os cidadãos dos nossos países
foi e continua a ser o sonho de uma vida melhor. Foi isso que moveu centenas
de milhares de imigrantes japoneses que vieram viver no Brasil entre o
final do século XIX e meados do século XX e é isso
que levou dezenas de milhares de dekasseguis a seguir o caminho inverso
de seus antepassados , rumo, agora, ao Japão.
Os números
não deixam nenhuma dúvida sobre a força da integração
entre brasileiros e japoneses. O Brasil é, hoje, o país
com a maior comunidade japonesa fora do Japão. São, ao todo,
mais de 1,5 milhão de japoneses e descendentes vivendo por aqui.
No Japão, moram mais de 300 mil brasileiros, a maior parte de netos
e bisnetos de japoneses que vieram para o Brasil no século passado.
Quero, neste
espaço, enfatizar a importância dos isseis, nisseis, sanseis
e yonseis não só para a cultura como para a economia do
Brasil. Destaque-se o associativismo e o aprimoramento tecnológico
na agricultura, que permitiu o desenvolvimento de cinturões verdes
dos centros urbanos, garantindo a auto-suficiência brasileira em
verduras, legumes, frutos e produtos de origem animal. Lembro também
o desenvolvimento da siderurgia nacional, que recebeu capital e tecnologia
japoneses.
A comemoração
do centenário da imigração japonesa estimula-nos
a lançar as bases para um novo ciclo virtuoso nas relações
bilaterais. Essa nova relação deverá combinar temas
tradicionais de nossa agenda mineração, siderurgia
e agricultura com frentes inovadoras de atuação conjunta,
como projetos no âmbito do desenvolvimento limpo, incorporação
do etanol na matriz energética japonesa e desenvolvimento de novo
sistema de TV digital. Posso citar como resultados concretos dessa aproximação
a venda de dez aviões da Embraer para a Japan Airlines e os entendimentos
para a exportação de software brasileiro para o mercado
japonês.
O Programa
de Aceleração do Crescimento (PAC) oferece oportunidades
concretas de um novo ciclo de investimentos. Até 2010, serão
investimentos de US$ 250 bilhões em logística, energia e
infra-estrutura. O trem de alta velocidade, ligando Rio de Janeiro, São
Paulo e Campinas, um projeto de US$ 10 bilhões, é especialmente
atraente.
A recente concessão
de grau de investimento atesta as excelentes perspectivas que a economia
brasileira oferece aos investidores. Mas o Brasil também começa
a investir no Japão. Além dos investimentos da Vale, a Petrobras
adquiriu, recentemente, usina de distribuição de combustível
em Okinawa, que poderá servir de base, no futuro, para a distribuição
de etanol no mercado japonês.
Na verdade,
as relações econômicas bilaterais são uma extensão
natural da relação que cidadãos brasileiros e japoneses
construíram por sua conta ao longo deste último século.
Uma lição de tolerância, trabalho duro e paixão
que se renova neste início de século XXI e que, tenho certeza,
ainda vai gerar muitos frutos para o Brasil e para o Japão.
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