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Especial
Pontos comerciais guardam a história do bairro da Liberdade
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Os
primeiros japoneses começaram a chegar ao atual bairro oriental
ainda em 1912
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(Reportagem:
Tatiana Akemi Maebuchi/especial para o NB)
O bairro da
Liberdade começou a receber os primeiros imigrantes japoneses em
1912. Naquela época, era lá onde aproximadamente 300 pessoas
moravam e começaram a abrir seus próprios negócios,
aproveitando o imóvel em que viviam. A partir de 1968, muitos mudaram-se
para outros locais, mantendo apenas seus pontos comerciais no bairro.
A região passou, então, a atrair chineses e coreanos. Hoje,
o bairro oriental abriga poucos japoneses e seus descendentes. Mas quatro
estabelecimentos que acompanharam a chegada dos nikkeis na grande cidade
continuam no local e guardam histórias que revelam a trajetória
dos imigrantes e seus descendentes na zona urbana.
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| Clientes
de longa data |
Lourdes
Sato, dona do Restaurante Sato: clientes fiéis e famosos
no estabelecimento
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Na Liberdade,
a pessoa que traduz amizades e histórias é Lourdes Sato,
70, que comanda o Restaurante Sato.
Na década
de 1960, sua família abriu a Pensão Sato, que funcionou
até 1970 e servia almoço e jantar. Seus hóspedes,
em geral, eram jovens descendentes de várias partes do interior,
que vinham para a capital estudar e necessitavam de um lugar confiável
para ficar.
O número
de estudantes nikkeis era tão grande que fez surgir vários
estabelecimentos nas ruas Galvão Bueno, da Glória, Conselheiro
Furtado e até um pouco mais distante, na Conde de Sarzedas.
Na época,
o restaurante de dona Lourdes chegava a atender 150 pessoas por dia. Ainda
hoje, segue a tradição de mostrar o cardápio na parede.
"Se você mostrar o cardápio no papel, o freguês
demora muito para fazer pedido", explica ela.
Seus clientes
mais antigos frequentam o restaurante há 40 anos. "A comida
não mudou nada. É a mesma coisa que se estivesse comendo
em casa", garante Lourdes, que afirma que até os estudantes
de outras pensões iam ao seu restaurante para fazer as refeições.
Ao longo destes
50 anos, várias personalidades já provaram o tempero do
estabelecimento, entre elas o ex-governador Ademar de Barros, o deputado
Paulo Kobayashi, os ex-presidentes Jânio Quadros e Fernando Henrique
Cardoso, e o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
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| Doce
bairro |
Eiko,
do Kanazawa Comercial, mostra doce exclusivo de sua loja, o sakura
moti
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Outro estabelecimento
de descendentes de japoneses que resistiu ao tempo e às mudanças
na Liberdade foi o Kanazawa Comercial, loja especializada em doces. Aos
16 anos, Eiko Kanazawa, hoje com 76, saiu de Bastos, interior de São
Paulo e veio para a capital. Chegou a trabalhar em uma tinturaria, fez
um curso de corte e costura e foi vendedora de máquinas de costura.
Mas nenhum desses trabalhos a agradou.
Sua vida começou
a mudar aos 34, quando mudou para a Vila Brasilândia e decidiu produzir
doces. "Meu marido tinha uma pequena fábrica que ocupava os
cômodos de cima e de baixo da casa, lembra Eiko. Ela contava
apenas com a ajuda do cunhado, que recebia os pedidos pela manhã
e entregava as encomendas à tarde.
Todo o processo
de produção era manual e só depois que se instalaram
na Liberdade é que compraram uma máquina para socar moti
e fazer anko (doce de feijão em pasta). Nos anos 70, passaram a
distribuir doces em lojas, supermercados e no Ceagesp.
O local guarda
boas recordações, não só do sucesso no trabalho.
"Meus três filhos foram criados aqui, dentro desta loja mesmo.
Antigamente, a gente conhecia todos os vizinhos que moravam em frente",
relembra.
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| Pioneirismo |
Shizue
Higaki: atendimento em língua japonesa como diferencial
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Shizue Higaki
Arai, 74, nasceu na Liberdade e é parte da família Higaki,
grupo dos primeiros japoneses a se instalarem na rua Galvão Bueno.
Durante a Segunda Guerra Mundial, mudaram-se para a Vila Mariana e, ao
fim dela, voltaram a morar naquela rua. Decidiram começar um negócio
próprio e inauguraram a Pensão Asahi. "Tempos depois
vagou o imóvel vizinho e resolvemos alugar", conta. No local,
abriram um bar em 1953. O negócio prosperou, foi ampliado e virou
o Restaurante Asahi.
Shizue, como
muitos descendentes, tinha o sonho de cursar uma faculdade mais
que uma profissão, era um passo significativo para a integração
dos japoneses na sociedade brasileira por meio de seus filhos. Ela cursou
Farmácia na USP (Universidade de São Paulo) e antes de concluir
os estudos passou a trabalhar em uma drogaria, onde conheceu seu marido,
um cliente do estabelecimento. Aos 27 anos, casou-se e decidiu abrir seu
próprio negócio ao lado do restaurante de sua mãe,
em 1962. Nascia, então, a Farmácia Galvão Bueno,
hoje a mais antiga do bairro. O diferencial era o atendimento em
japonês, orgulha-se, lembrando que o auxílio bilíngue
é um dos responsáveis pela fidelização dos
fregueses.
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| Quase
50 anos de tradição |
Motohide
Yahiro chegou à Liberdade em 1961 e abriu uma barbearia
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Em 1961, outro
nikkei chegava à Liberdade. Motohide Yahiro, 75, natural de Araponga,
Paraná, é o primeiro barbeiro do bairro. Ele aprendeu a
técnica no Japão e quando tinha 26 anos começou a
atuar no Paraná. "Minha irmã tinha um salão
e comecei a trabalhar junto com ela", conta. Como a cidade era pequena,
decidiram mudar-se para São Paulo. "Viemos direto aqui para
a Liberdade. Naquela época, a maioria aqui no bairro era japonesa.
Então, para nós, ficava mais fácil."
Os primeiros
clientes eram isseis, mas, com o tempo, o salão de Yahiro também
passou a ser frequentado por imigrantes que começaram a chegar
à cidade e os descendentes de segunda geração (os
chamados nisseis) que vinham para a capital estudar. Ainda hoje, muitos
permanecem fiéis à tesoura de Yahiro, que agora conta com
a ajuda de seu filho Teruo Yahiro, 35, que conquista clientes mais jovens.
"Já passou o pai", elogia, sorridente, o patriarca.
No salão
dos Yahiro, a barba é feita à moda antiga, com direito à
toalha aquecida em uma máquina trazida do Japão. "Com
a toalha quente, a barba amolece, fica macia e mais fácil de ser
feita", explica. Talvez por cultivar tradições como
esta que a barbearia seja tão procurada. "Tenho clientes há
53 anos", conta. Seus fregueses mais antigos são dois : um
tem 96 anos e o outro, 105.
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