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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010
Especial
Pontos comerciais guardam a história do bairro da Liberdade
Os primeiros japoneses começaram a chegar ao atual bairro oriental ainda em 1912

(Reportagem: Tatiana Akemi Maebuchi/especial para o NB)

O bairro da Liberdade começou a receber os primeiros imigrantes japoneses em 1912. Naquela época, era lá onde aproximadamente 300 pessoas moravam e começaram a abrir seus próprios negócios, aproveitando o imóvel em que viviam. A partir de 1968, muitos mudaram-se para outros locais, mantendo apenas seus pontos comerciais no bairro. A região passou, então, a atrair chineses e coreanos. Hoje, o bairro oriental abriga poucos japoneses e seus descendentes. Mas quatro estabelecimentos que acompanharam a chegada dos nikkeis na grande cidade continuam no local e guardam histórias que revelam a trajetória dos imigrantes e seus descendentes na zona urbana.

 
Clientes de longa data

Lourdes Sato, dona do Restaurante Sato: clientes fiéis e famosos no estabelecimento

Na Liberdade, a pessoa que traduz amizades e histórias é Lourdes Sato, 70, que comanda o Restaurante Sato.

Na década de 1960, sua família abriu a Pensão Sato, que funcionou até 1970 e servia almoço e jantar. Seus hóspedes, em geral, eram jovens descendentes de várias partes do interior, que vinham para a capital estudar e necessitavam de um lugar confiável para ficar.

O número de estudantes nikkeis era tão grande que fez surgir vários estabelecimentos nas ruas Galvão Bueno, da Glória, Conselheiro Furtado e até um pouco mais distante, na Conde de Sarzedas.

Na época, o restaurante de dona Lourdes chegava a atender 150 pessoas por dia. Ainda hoje, segue a tradição de mostrar o cardápio na parede. "Se você mostrar o cardápio no papel, o freguês demora muito para fazer pedido", explica ela.

Seus clientes mais antigos frequentam o restaurante há 40 anos. "A comida não mudou nada. É a mesma coisa que se estivesse comendo em casa", garante Lourdes, que afirma que até os estudantes de outras pensões iam ao seu restaurante para fazer as refeições.

Ao longo destes 50 anos, várias personalidades já provaram o tempero do estabelecimento, entre elas o ex-governador Ademar de Barros, o deputado Paulo Kobayashi, os ex-presidentes Jânio Quadros e Fernando Henrique Cardoso, e o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 
Doce bairro

Eiko, do Kanazawa Comercial, mostra doce exclusivo de sua loja, o sakura moti

Outro estabelecimento de descendentes de japoneses que resistiu ao tempo e às mudanças na Liberdade foi o Kanazawa Comercial, loja especializada em doces. Aos 16 anos, Eiko Kanazawa, hoje com 76, saiu de Bastos, interior de São Paulo e veio para a capital. Chegou a trabalhar em uma tinturaria, fez um curso de corte e costura e foi vendedora de máquinas de costura. Mas nenhum desses trabalhos a agradou.

Sua vida começou a mudar aos 34, quando mudou para a Vila Brasilândia e decidiu produzir doces. "Meu marido tinha uma pequena fábrica que ocupava os cômodos de cima e de baixo da casa”, lembra Eiko. Ela contava apenas com a ajuda do cunhado, que recebia os pedidos pela manhã e entregava as encomendas à tarde.

Todo o processo de produção era manual e só depois que se instalaram na Liberdade é que compraram uma máquina para socar moti e fazer anko (doce de feijão em pasta). Nos anos 70, passaram a distribuir doces em lojas, supermercados e no Ceagesp.

O local guarda boas recordações, não só do sucesso no trabalho. "Meus três filhos foram criados aqui, dentro desta loja mesmo. Antigamente, a gente conhecia todos os vizinhos que moravam em frente", relembra.

 
Pioneirismo

Shizue Higaki: atendimento em língua japonesa como diferencial

Shizue Higaki Arai, 74, nasceu na Liberdade e é parte da família Higaki, grupo dos primeiros japoneses a se instalarem na rua Galvão Bueno. Durante a Segunda Guerra Mundial, mudaram-se para a Vila Mariana e, ao fim dela, voltaram a morar naquela rua. Decidiram começar um negócio próprio e inauguraram a Pensão Asahi. "Tempos depois vagou o imóvel vizinho e resolvemos alugar", conta. No local, abriram um bar em 1953. O negócio prosperou, foi ampliado e virou o Restaurante Asahi.

Shizue, como muitos descendentes, tinha o sonho de cursar uma faculdade – mais que uma profissão, era um passo significativo para a integração dos japoneses na sociedade brasileira por meio de seus filhos. Ela cursou Farmácia na USP (Universidade de São Paulo) e antes de concluir os estudos passou a trabalhar em uma drogaria, onde conheceu seu marido, um cliente do estabelecimento. Aos 27 anos, casou-se e decidiu abrir seu próprio negócio ao lado do restaurante de sua mãe, em 1962. Nascia, então, a Farmácia Galvão Bueno, hoje a mais antiga do bairro. “O diferencial era o atendimento em japonês”, orgulha-se, lembrando que o auxílio bilíngue é um dos responsáveis pela fidelização dos fregueses.

Quase 50 anos de tradição

Motohide Yahiro chegou à Liberdade em 1961 e abriu uma barbearia

Em 1961, outro nikkei chegava à Liberdade. Motohide Yahiro, 75, natural de Araponga, Paraná, é o primeiro barbeiro do bairro. Ele aprendeu a técnica no Japão e quando tinha 26 anos começou a atuar no Paraná. "Minha irmã tinha um salão e comecei a trabalhar junto com ela", conta. Como a cidade era pequena, decidiram mudar-se para São Paulo. "Viemos direto aqui para a Liberdade. Naquela época, a maioria aqui no bairro era japonesa. Então, para nós, ficava mais fácil."

Os primeiros clientes eram isseis, mas, com o tempo, o salão de Yahiro também passou a ser frequentado por imigrantes que começaram a chegar à cidade e os descendentes de segunda geração (os chamados nisseis) que vinham para a capital estudar. Ainda hoje, muitos permanecem fiéis à tesoura de Yahiro, que agora conta com a ajuda de seu filho Teruo Yahiro, 35, que conquista clientes mais jovens. "Já passou o pai", elogia, sorridente, o patriarca.

No salão dos Yahiro, a barba é feita à moda antiga, com direito à toalha aquecida em uma máquina trazida do Japão. "Com a toalha quente, a barba amolece, fica macia e mais fácil de ser feita", explica. Talvez por cultivar tradições como esta que a barbearia seja tão procurada. "Tenho clientes há 53 anos", conta. Seus fregueses mais antigos são dois : um tem 96 anos e o outro, 105.

 
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